No dia 18 de Novembro, pelas 11 horas da manha,realizamos uma entrevista a uma rapariga de 20 anos, na Unidade de Psiquiatria do Hospital Curry Cabral que sofre, á cerca de três anos de uma depressão profunda e que consequentemente se automutila.
“Erica”, nome fictício, disponibilizou-se a contar alguns pormenores da sua história enquanto doente dependente, preferindo não facultar qualquer espécie de imagem nem de som.
A entrevista foi levada em tom de conversa natural para que a Erica não se sentisse pressionada pelas perguntas; presente estava ainda a mãe de Erica que elogiou bastante o facto de o grupo “ter escolhido um tema que apesar de muito falado a nível científico, pouco se fala daquilo que os doentes sentem”.
Tatiana: Como é que a depressão entrou na tua vida?
Erica: Como entrou não sei, é daquelas perguntas que nem aos médicos eu sei responder. Consigo-te dizer que há muito tempo que não me sentia bem, não gostava de olhar para mim, mas não tinha nada a ver com o meu corpo era mesmo comigo própria.
Tatiana: Que sintomas e que rituais é que adoptaste quando começaste a “não estar bem?”
Erica: Eu não lhe chamo de rituais, simplesmente comecei a tentar encontrar maneiras de me sentir minimamente bem comigo. O barulho e a confusão das pessoas eram um autêntico caos… Sentia dores de cabeça tão fortes que parecia que ia rebentar. Sentia-me quase sempre triste, mas uma tristeza completamente diferente. A luz perturbava-me muito e acabava em casa fechada no quarto de luzes apagadas e sempre de mp3 nos ouvidos. Era assim que me conseguia sentir menos triste; estava sozinha, ninguém me chateava…
Tatiana: Quanto tempo escondeste de todos aquilo que se estava a passar?
Erica: Isso do tempo é relativo, mas foi cerca de ano e meio. Lembro-me que houve um dia em que a minha mãe abriu a porta do meu quarto, acendeu a luz e me disse qualquer coisa do género “Erica a mãe não consegue perceber o que se passa contigo, andas tão tristonha!”
Tatiana: De que maneira é que evoluiu, e até que ponto?
Erica: Boa pergunta! Olha, cheguei a um ponto em que não havia nada que me fizesse estar bem. Chorava pelas coisas mais parvas e estava sempre…angustiada. Comecei a ter ataques de pânico, que na altura pensava que eram ataques cardíacos, horrível! Foi então que me comecei a cortar e as ideias suicidas estavam constantemente a passar-me pela cabeça; chegava mesmo ao ponto de “fazer o filme todo cá dentro”.
Ao mesmo tempo que me tinha começado a mutilar comecei a entrar numa espécie de luta comigo mesma. Eu sabia que aquilo não haveria de ser bom, mas a sensação de alívio era tão forte que eu cheguei mesmo a achar que todos os meus problemas se iam resolver com aquele tipo de acções que não prejudicavam ninguém. Então, quanto maior eram os problemas, maior era a vontade e maior era a satisfação. É complicado explicar o que sentia, mas a verdade é que aquilo me fazia ficar tão aliviada que começou a tornar-se rotina por assim dizer. Houve um dia em que me passei completamente com uma pessoa de quem gostava muito e acabei por pensar em morrer, e que era essa a solução. Sim, tentei o suicídio, mas prefiro não falar muito mais sobre isso!
Tatiana: Como te sentias quando te automutilavas? Até que ponto é que isso se tornou uma dependência?
Erica: Foi como te disse à bocado, era uma sensação de alívio e de prazer tão fortes que nem pensava em mais nada; isso da dependência não acho que o seja, simplesmente era a minha maneira de me sentir confortável no meu corpo.
Tatiana: E a tua família, os teus amigos e as pessoas a tua volta, como é que reagiram contigo quando se aperceberam do problema?
Erica: A essa pergunta acho que devia ser a minha mãe a responder!
Mãe da Erica: Olha querida, quando eu tomei consciência do que se passava com a “Erica”, fiquei chocada. Parecia que o mundo me tinha caído em cima. Senti-me tão frustrada e impotente que cheguei mesmo a duvidar das minhas qualidades de mãe e se Deus não me estaria a castigar. Quando vi o que a “Erica” tinha feito nos braços, nas costas, na barriga… (A mãe da “Erica” começa a chorar pelo que preferi não a forçar a responder).
Erica: Olha a minha família começou a ficar tão obcecada comigo que inventavam de tudo para que não ficasse sozinha, para que não houvesse nada lá em casa que eu pudesse utilizar para me cortar; olha parecia uma casa de doidos!
Quanto aos amigos, sobraram 5 ou 6, o resto chegava mesmo ao ponto de passar por mim na rua e de se rir na minha cara.
O pior foi mesmo o meu namorado; no inicio ele era o melhor namorado do mundo e fazia de tudo para estar sempre comigo, mas depois como eu ás vezes digo “deve-se ter fartado aqui da maluquinha”…
Tatiana: A que tipo de tratamentos e cuidados é que foste e és sujeita?
Erica: No inicio, fui transferida aqui do HCC para o Hospital Júlio de Matos e fiquei lá internada. Vinha a casa aos fins-de-semana mas as coisas não corriam como os médicos queriam e então voltava sempre a lá ficar. Eles encheram-me de comprimidos, tudo o que possas imaginar. Depois, quando saí de lá continuei com as consultas de psiquiatria e à parte com consultas com uma psicóloga particular. Hoje estou apenas em regime de consultas, mas continuo com alguns comprimidos.
Tatiana: A nível dessa medicação, que tipo de medicamentos tomas? E que efeitos sentiste que os medicamentos tinham sobre ti, tanto a nível psicológico como ao nível do teu corpo?
Erica: Anti-psicóticos, anti-depressivos, ansiolíticos e calmantes. Olha do corpo foi horrível, fiquei tão inchada… Engordei quase 20 quilos em 6 meses o que me fez ficar logo paranóica com o meu corpo. A nível psicológico, é uma dependência tão grande… Se me esqueço de um dos medicamentos fico logo a “bater mal”.
Tatiana: Hoje, como te sentes e de que maneira é que a tua vida conseguiu entrar em “normalidade”?
Erica: Olha hoje sinto-me capaz de sorrir com vontade. Fiz novos amigos, isto, porque mudei de casa e de ares. Entrei para a Faculdade e estou no curso de Psicologia a acabar o primeiro ano. Não te vou mentir e dizer que estou a 100%, nada disso! Ás vezes as coisas não estão tão bem, ás vezes ainda tenho ataques de pânico, que aprendi a controlar, há dias em que estou mais triste, mas é nesses dias que agarro no telemóvel e sou capaz de ficar horas a falar de coisas sem nexo com a minha mãe que no meio disto tudo se tornou na minha melhor amiga.
Aprendi a viver comigo e isso é o melhor!
Tatiana: Algum conselho em especial ou palavra de apoio a pessoas que estão a passar pelo mesmo e que não têm coragem para se chegar à frente e admitir que se calhar “as coisas não estão bem”?
Erica: Bem, que não tenham vergonha de admitir que estão a passar uma má fase. Que falem com os mais próximos, aqueles de que têm a certeza que não se vão rir nem apontar o dedo. Não tenham medo de entrar num consultório tanto de uma psicóloga como de uma psiquiatra porque são médicos que sabem aquilo que fazem, aquilo que falam e que sabem como ajudar. Procurem sorrir com vontade e estar perto de pessoas que lhes façam bem, mas mesmo, mesmo bem! Procurem ser felizes porque isso é o mais importante.
Após a entrevista a Erica e a mãe ainda estiveram um bocadinho à conversa com a Tatiana. Incentivaram o grupo a continuar o trabalho e disseram achar importante que pessoas da nossa idade se preocupem com este tipo de temas.
Um beijinho enorme à Erica e à mãe e um muito obrigado pela pré-disposição e colaboração!
Força Erica!